sábado, 24 de agosto de 2013

carta para são pedro

Meu São Pedrinho
Faz tempo que não nos falamos, estou com saudades.
Eu estou ótima, meu fim de semana começou bem. De chatinho, é que ontem precisei ir ao salão. Não gosto de perder tempo em salão, tenho sempre a sensação de tempo perdido. Mas, como eu já não tenho 20, não posso abrir mão de certos artifícios. Afinal,  preciso me cuidar.
Pois fui, e agora estou aqui, toda bonitinha, pés sedosos, depil em dia, mãos hidratadas, esmaltezinho vermelho nas unhas, cabelos devidamente retocados...
Falando em cabelos, esse é o ponto. A cor está ótima, foi reativada pelo procedimento de ontem – 45 minutos com uma melequinha gelada na cabeça. Os cachos estão perfeitos, hidratados, modelados, definidos, macios – porque estou trancada em casa e com as janelas fechadas.  Mas amanhã é domingo e eu quero sair; quero ver gente, ter um dia agradável, descontraído, sem um nadinha de preocupação. Hás de convir que  eu fiz a minha parte. Agora é tua vez, meu santo. Que tal dares uma forcinha aí? É que os cabelos das mortais detestam umidade. E demonstram o desagrado de maneira inequívoca: chapinha ou cachos, arrepiam-se feito gato arisco. E lá se vai pelo esgoto o investimento na produção.
Então podes fechar a torneirinha? Até porque, sei lá, com essa água toda fico pensando no perigo de uma desidratação. Sabes como é, também já não tens 20...
Pensa com carinho – e te cuida.  Beijo da

Eliana

sábado, 10 de agosto de 2013

emergindo

Essa chuva mansa e constante me perturba, faz com que revolva meus subterrâneos na ânsia de completude. Entrega-me pá e picareta, e ordena: - Cave!  Eu remexo argila, removo a solidez das rochas, afasto cascalhos... Cavo mais e mais na esperança frágil de encontrar o Santo Graal. Enquanto isso, cordões de ouro enfeitam minha rua e eu não percebo. Meu olhar profano se perdeu em alguma esquina e, tão absorta no trabalho de desbravar minhas cavernas, esqueci que também sou ar, sou flor, leveza, e prazer.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

recorrência

rente ao muro me desfaço
entre seixos, reentrâncias
- murro e faca

sexta-feira, 26 de julho de 2013

enfim

m’escorreguei pelas frestas
e pelos vãos dos teus dedos
meu horizonte é rubi

terça-feira, 23 de julho de 2013

poeminha de_vagar


Todo meio-dia ele surgia na esquina
e vinha e vinha – devagar como convinha – ,
sandálias riscando a calçada.
Na boca, um gostinho de cocada branca.
Os olhos cheios de malícia doce
transbordavam carinho, prometiam carícias.
Chegava se achegando,
chegava murmurando para a moça da janela:
Você é minha, assim toda bem feitinha.
E mesmo que não fosse, porque não quisesse,
nada mais era preciso além de abrir os braços,

espaço exato pro aconchego dela.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

sonhando

(e proseando em verso com Álvaro de Campos)

meu sono é outro, Álvaro
teu sono mata, não quero isso; eu 'inda espero

quero ver a rapariga da janela e seu amante
ouvir todos os sons, as estridências
desassossego, alumbramento... muito riso

e também quero suspiro, paz candente
minha coxa descansando na mão dele
não quero o mundo dentro, sombra e segredo
antes quero o peito arfante dele

se é pra morrer, que me sufoque em ondas o desejo

consta

no princípio era o verbo -
e eu engoli verso por verso

até que enfim reflete em mim o verbo inverso