sábado, 15 de fevereiro de 2014

bela

minha mágoa se debruça sobre o lago
qual Narciso embevecido

a dor autófaga se mira no espelho d’água

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

voyeur

Na varanda, o vento
E o vermelho céu-novembro

Nos veem_nus

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

viagem

a estrada negra me engole
me traga e me cospe avessa
zumbi veloz sigo em curvas
feitiço que desfaz nós

sábado, 9 de novembro de 2013

velha

Pronto, aconteceu: envelheci. Foi na noite passada. Fui perceber agora há pouco – e nem doeu.  As ruguinhas de repente mudaram de status. Não mais velhas conhecidas; agora velhas amigas. Foi boa minha conversa com elas.
Não estou dizendo que envelhecer seja bom, não. De fato, é muito ruim. É como a TPM – tensão, irritação, impotência... é o tempo quente, abafado, que antecipa a chuva. Até que o sangue desce. Aí tu te olhas no espelho e vês que já estás velha. E te aceitas velha. E te achas uma mulher incrível, linda, velha e forte. Isso, sim, é bom demais.

Para comemorar, fui ao salão e pintei meus cabelos de vermelho.

sábado, 26 de outubro de 2013

repouso


No corpo cru mãos macias,
ânsias de alisar alma
Gritos! sussurros... afinal se acalmam

inquietude

Dias assim enredam  meu peito.
Eu ando sem jeito pela casa
deixo portas abertas, espalho roupas
Desfaço impressões e as construo novamente.
Por onde vou, sensações me perseguem.


Mas as palavras tardam. 

sábado, 14 de setembro de 2013

sedução

Marquei encontro com teus olhos
na antiga esquina dos nossos amores
Sem demora me joguei nos teus braços
tão necessários ao meu conforto
Em meu peito, turbulência de céu claro
Em tuas mãos, gata enrodilhada,
me entreguei então, me deixei assim
como que nada. Mas como furacão
me explodi depois;  e me escorri como lava...

e te prendo aqui

sábado, 24 de agosto de 2013

carta para são pedro

Meu São Pedrinho
Faz tempo que não nos falamos, estou com saudades.
Eu estou ótima, meu fim de semana começou bem. De chatinho, é que ontem precisei ir ao salão. Não gosto de perder tempo em salão, tenho sempre a sensação de tempo perdido. Mas, como eu já não tenho 20, não posso abrir mão de certos artifícios. Afinal,  preciso me cuidar.
Pois fui, e agora estou aqui, toda bonitinha, pés sedosos, depil em dia, mãos hidratadas, esmaltezinho vermelho nas unhas, cabelos devidamente retocados...
Falando em cabelos, esse é o ponto. A cor está ótima, foi reativada pelo procedimento de ontem – 45 minutos com uma melequinha gelada na cabeça. Os cachos estão perfeitos, hidratados, modelados, definidos, macios – porque estou trancada em casa e com as janelas fechadas.  Mas amanhã é domingo e eu quero sair; quero ver gente, ter um dia agradável, descontraído, sem um nadinha de preocupação. Hás de convir que  eu fiz a minha parte. Agora é tua vez, meu santo. Que tal dares uma forcinha aí? É que os cabelos das mortais detestam umidade. E demonstram o desagrado de maneira inequívoca: chapinha ou cachos, arrepiam-se feito gato arisco. E lá se vai pelo esgoto o investimento na produção.
Então podes fechar a torneirinha? Até porque, sei lá, com essa água toda fico pensando no perigo de uma desidratação. Sabes como é, também já não tens 20...
Pensa com carinho – e te cuida.  Beijo da

Eliana

sábado, 10 de agosto de 2013

emergindo

Essa chuva mansa e constante me perturba, faz com que revolva meus subterrâneos na ânsia de completude. Entrega-me pá e picareta, e ordena: - Cave!  Eu remexo argila, removo a solidez das rochas, afasto cascalhos... Cavo mais e mais na esperança frágil de encontrar o Santo Graal. Enquanto isso, cordões de ouro enfeitam minha rua e eu não percebo. Meu olhar profano se perdeu em alguma esquina e, tão absorta no trabalho de desbravar minhas cavernas, esqueci que também sou ar, sou flor, leveza, e prazer.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

recorrência

rente ao muro me desfaço
entre seixos, reentrâncias
- murro e faca

sexta-feira, 26 de julho de 2013

enfim

m’escorreguei pelas frestas
e pelos vãos dos teus dedos
meu horizonte é rubi

terça-feira, 23 de julho de 2013

poeminha de_vagar


Todo meio-dia ele surgia na esquina
e vinha e vinha – devagar como convinha – ,
sandálias riscando a calçada.
Na boca, um gostinho de cocada branca.
Os olhos cheios de malícia doce
transbordavam carinho, prometiam carícias.
Chegava se achegando,
chegava murmurando para a moça da janela:
Você é minha, assim toda bem feitinha.
E mesmo que não fosse, porque não quisesse,
nada mais era preciso além de abrir os braços,

espaço exato pro aconchego dela.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

sonhando

(e proseando em verso com Álvaro de Campos)

meu sono é outro, Álvaro
teu sono mata, não quero isso; eu 'inda espero

quero ver a rapariga da janela e seu amante
ouvir todos os sons, as estridências
desassossego, alumbramento... muito riso

e também quero suspiro, paz candente
minha coxa descansando na mão dele
não quero o mundo dentro, sombra e segredo
antes quero o peito arfante dele

se é pra morrer, que me sufoque em ondas o desejo

consta

no princípio era o verbo -
e eu engoli verso por verso

até que enfim reflete em mim o verbo inverso

quarta-feira, 5 de junho de 2013

epitáfio

pactos, contratos insensatos
vida acordada é coisa chata

melhor é ter vida dormida

quarta-feira, 29 de maio de 2013

o rei do gatilho


Moreira da Silva, o Kid Morengueira (ou Moringueira), criador do samba-de-breque, deixou-nos este presente




terça-feira, 28 de maio de 2013

absolutoverso

explode
jeitoso e forte

nem sul sem norte

quarta-feira, 22 de maio de 2013

janelas


Longe o olhar se derrama
Infinitos delírios
Em vão(s)

domingo, 19 de maio de 2013

dia cinzento


fecha a janela
inventa encanto
- aquarela 

terça-feira, 14 de maio de 2013

seiva


Em cadeia natural
A delicadeza agradece
E a vida segue