Na embriaguez verbal dos primeiros tempos, começamos mostrando somente o que temos de mais bonito. Oferecemos ao outro os miosótis da nossa alma. Mas logo percebemos que isso não basta. Se ele os conhecer todos, ainda assim nos sentiremos desconhecidos, e permaneceremos em extremo perigo. Pois atrás dos miosótis crescem urtigas espinhentas, e é através delas que queremos ser amados. Amar as minhas belezas qualquer um pode, é fácil demais. Mas para amar os meus defeitos é necessária uma pessoa especial, aquela a quem eu também amarei. (E por falar em amor - Marina Colasanti)
Eu tinha 18 anos, cidadezinha do interior. Estava em minha loja, observando as poucas pessoas que passavam. De repente, movimentação inusitada. Fui para a porta da loja e vi. Três sujeitos espancavam um homem bêbado e o jogavam na caçamba de uma caminhonete – ele, ensanguentado e sujo – como se fosse um saco de batatas.
O motivo de tanta violência, não sei. Mas nada justificaria tal brutalidade.
O que eu senti ao assistir à cena me assombra até hoje. Um impulso enorme de sair em socorro do homem, gritando que o soltassem, que não podiam tratar ninguém daquela maneira. E – no instante seguinte – uma força paralisante, um medo, uma covardia, um pensar nas consequências (mesmo sem saber quais), que me fizeram fugir para o interior da loja.
Essa lembrança me persegue. Se eu tivesse tentado socorrê-lo, que espécie de pessoa seria hoje? Bem diferente do que sou, tenho certeza. Ou não?
Estávamos em Paquetá (já escrevi minhas impressões a respeito da Ilha), jantarzinho improvisadopela cozinheira do hotel, numa espécie de barzinho – o hotel não serve jantar nem abre o restaurante à noite.Tudo bem, ambiente informal, papo despretensioso, sopinha deliciosa.
Apenas P., eu, uma das donas do hotel e a cozinheira, dona Laura. Que, aliás, falava pelos cotovelos. Enquanto saboreávamos a sopa, ouvíamos a simpática senhora. Ficamos sabendo que ela édo interior de MG e que veiopara o RJ à procura de emprego. Mora em São Gonçalo, trabalha em Paquetá nos finais de semana e sempre que há feriado.
Falando a respeito do lugar onde mora, disparou:
- As pessoas acham que lá tem muita violência; não tem, não. Meus meninos brincam na rua até a noite, as pessoas não passam chave nas portas, dormimos com as janelas abertas.
Àquelas alturas, eu quase perguntava para dona Laura onde, afinal, ela morava. Queria me mudar para lá, com urgência.
-Também, todos já sabem: Se alguém fizer crime ali, os pessoal mata. Tá certo, cês não acham? Afinal, quem quiser fazer coisa errada, que faça, mas noutro lugar. A comunidade, eles têm que respeitar.Cês não acham?
Doeu. Não sei o que me impressionou mais. Não o caso em si, afinal ninguém é ingênuo de pensar que pena de morte não existe no Brasil. Mas me chocou a naturalidade com que dona Lauraexternou sua opinião a favor do estado de coisas, e a certeza dela de que eu concordaria; e me incomodou sobremaneirao abalo que senti.
Tenho saudade do tempo em que era o senhor do universo. Confesso: a sensação de poder que teu amor me causava fazia-me Deus.
Tenho saudade do tempo em que eras reflexo de mim - eu de ti - e assim nós dois, duplos, mas únicos; ilógicos, perfumávamos de anis as manhãs.
Tenho saudade das coisas além do mar que o teu olhar me mostrava; hoje, nada...
Ontem, riso; hoje, lamento - tu, Aurora. O que antes era leve brisa perfumada hoje sopra, ensandecido, pela estrada e destrói o catavento da minh'alma.